Queremos Realmente Proteger a Biodiversidade?

Article in Portuguese by Luiz Fernando Krieger Merico, Coordenador Nacional da UICN no Brasil.

Luiz Fernando Krieger Merico, Coordenador Nacional da UICN no Brasil

Tivemos em outubro passado mais uma Conferência das Partes – COP da Convenção da Diversidade Biológica – CDB, assinada em 1992 junto com as convenções do clima e desertificação. Foi a 10ª COP da CDB, desta vez na cidade de Nagoya - Japão. A importância deste momento para a proteção da biodiversidade levou a ONU a declarar este ano o Ano Internacional da Biodiversidade. Entretanto, os níveis de destruição dos suportes de vida no planeta nos fazem questionar se queremos ou não manter os serviços ambientais oriundos da biodiversidade e que, em última instância, mantém todo o funcionamento de nossa sociedade. Considerando que a oferta de água e regulação climática dependem da biodiversidade, me parece que a sociedade ou não percebe esta relação e não a entende, ou, de fato, não lhe dá importância.

Em 2002 a Convenção da Diversidade Biológica da ONU, que reúne praticamente todos os países do planeta, aprovou um conjunto de 21 metas, ou seja um Plano Estratégico, para reduzir drasticamente a perda da biodiversidade até 2010. Recentemente, um relatório da própria Nações Unidas preparado especialmente com o fim de avaliar o cumprimento das metas – o Global Biodiversity Outlook 3, ou GBO-3, demonstrou que nenhuma das metas foram alcançadas. O relatório detalha o contínuo declínio da biodiversidade em todos os três de seus principais componentes, ou seja, genes, espécies e ecossistemas. Pior: as tendências são todas de agravamento da erosão da vida e das estruturas que a suportam e nossos investimentos revelam que não desejamos mudar o quadro.

Ao analisar os investimentos dos países em proteção ambiental, o já falecido economista ambiental David Pearce, fez esta pergunta: queremos realmente proteger a biodiversidade? Se tomarmos os investimentos públicos do Brasil, municípios, estados e união, a resposta seria claramente não. Em recente levantamento que fiz para a CEPAL/ONU para o período de 1996 a 2008, somando os gastos ambientais aos gastos de saneamento (água e esgoto) nos três níveis da federação encontramos uma média de 0.38% do PIB para estes investimentos. Se considerarmos apenas os gastos em manutenção ou recuperação da biodiversidade e seus serviços, chegaríamos a valores impressionantemente inferiores a isso.

Em escala global a UICN – União Internacional para a Conservação da Natureza contabilizou um fluxo total anual de U$ 7 bilhões para a conservação da biodiversidade. Ora, somente as unidades de conservação já criadas – apenas uma parcela dos trabalhos de conservação – exigiriam U$ 14 bilhões para o seu correto manejo. Uma rede minimamente necessária de unidades de conservação em nível global exigiria U$ 45 bilhões. E vejam que proteger a biodiversidade nos convoca a pensar muito além de unidades de conservação...

A mesma UICN contabiliza ao menos U$ 500 bilhões destinados a subsídios perversos todos os anos mundialmente. Subsídios para, em grande parte, destruir a natureza, tal como os subsídios para a indústria de petróleo, agricultura intensiva e pesca intensiva. Será que não conseguiríamos desviar ao menos uns 10% destes subsídios perversos para torná-los virtuosos? Neste caso, os U$ 50 bilhões gerados corresponderiam à lacuna de recursos necessários à implantação das decisões da CDB. Não nos faltam recursos. Falta visão de como investir. Falta visão de futuro.

Neste ano de 2010, a CDB voltou a discutir metas. Foi aprovado nesta 10° COP em Nagoya um novo Plano Estratégico, considerando o ano de 2020. Infelizmente, se não alterarmos nosso enfoque nesta questão, não teremos sucesso novamente. Não sei se podemos nos dar ao luxo de continuarmos a desprezar nossa necessidade vital dos serviços ambientais.

Dependemos desta vez, para levar realmente a sério a proposta de aprovar novas metas, de alterar nosso comportamento em três direções: uma mudança profunda nos processos de produção e consumo, adequando bens e consumo à realidade dos ecossistemas; a introdução ampla de critérios de proteção ambiental nos setores econômicos mais impactantes transformando agricultura, pecuária, produção de energia, construção civil, mineração; e investir em processos de restauração florestal e de biomas como forma de recuperar parte do que já perdemos. Todas estas três premissas são mecanismos geradores de crescimento econômico, emprego e renda. É claro que isso é uma nova economia que tem que ser alimentada.

No Brasil, a UICN se juntou com vários parceiros para definir uma estratégia, acordada com a sociedade, de implantação das metas. O objetivo é envolver todos os setores da sociedade, incluindo governos, iniciativa privada, academia e sociedade civil para garantir que as conquistas de Nagoya se materializem em ações de gestão eficiente da biodiversidade.

E enquanto esperamos por alterações em nosso modelo de desenvolvimento econômico, como proposto pela UICN, podemos dar uma boa mãozinha ao processo de transformação alterando nossos hábitos de consumo. Isto ajuda a pressionar a cadeia produtiva para cima, ou seja, alterando positivamente também os processos produtivos. E finalmente, melhorando nossa relação com a biodiversidade.

Queremos ou não que a natureza seja nossa parceira no fornecimento dos serviços ambientais que permitem nossa existência? O tempo de dizer sim está se esgotando rapidamente.

Luiz Fernando Krieger Merico
Coordenador Nacional da UICN no Brasil
Doutor em Geografia pela USP
Autor de “Economia e Sustentabilidade: o que é, como se faz”. Editora Loyola.
[email protected]

Location: 
South America
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