Progresso da Lista Vermelha de Ecossistemas da UICN na Mata Atlântica

A partir da aplicação metodológica da Lista Vermelha de Ecossistemas da UICN na Mata Atlântica conclui-se que, embora existam alguns desafios a serem transpostos para garantir seu estabelecimento no Brasil, a metodologia se apresenta como de fácil aplicação na presença de dados consistentes, contribuindo significantemente para gerar informações mais especificas acerca do estado de conservação dos ecossistemas, quanto sua extensão, estrutura, funções e principais ameaças.

Brasil

Diversas pesquisas realizadas na Mata Atlântica confirmam a riqueza e diversidade de espécies, mas também um cenário crítico de desmatamento, fragmentação dos remanescentes e intensas intervenções antrópica.

Contudo, verifica-se que, embora a situação da Mata Atlântica esteja confirmada diante de diversos estudos, a avaliação de risco dos ecossistemas que a compõe, através da aplicação dos critérios estabelecidos pela Lista Vermelha de Ecossistemas da UICN, detalhou, complementou e reforçou os resultados obtidos até os dias presentes, a partir de informações mais específicas sobre os riscos ao nível ecossistêmico. Desse modo, cada ecossistema identificado na Mata Atlântica neste estudo foi avaliado segundo dois critérios (A e B) dos cinco propostos por esta nova proposta metodológica da UICN, referentes à redução da distribuição geográfica e distribuição geográfica restrita, respectivamente, cujos resultados alcançados foram compatíveis à literatura bibliográfica existente sobre a situação atual da Mata Atlântica: contatou-se que aproximadamente 55% dos remanescentes no Domínio Mata Atlântica estão criticamente em perigo (CR), 36% em perigo (EN) e 9 % (VU) (dados não publicados).

Assim, diante desta pesquisa, algumas questões pertinentes da aplicação metodológica destes critérios para avaliar os ecossistemas que perfazem a Mata Atlântica devem ser ressaltadas:

Inicialmente, a metodologia incidiu em um empasse referente à definição de ecossistemas, fundamental para dar partida aos estudos. Verifica-se que a Mata Atlântica apresenta diversas nomeações como “Domínio”, “Bioma”, “Ecossistema”, frequentemente adotados nos artigos publicados, de modo que a própria conceituação de “ecossistemas”, em muitos casos, está empregada equivocamente.

A partir deste contexto, evidencia-se o primeiro obstáculo a comprometer a eficácia da legislação para a conservação da biodiversidade ecossistêmica. Subsequente à necessidade de definição padronizada de ecossistemas e seus limites biogeográficos, observou-se a necessidade de definir as melhores bases de dados que darão maior suporte à definição dos ecossistemas brasileiros, bem como os melhores indicadores da qualidade ecossistêmica, ou seja, as variáveis bióticas e abióticas que devem ser consideradas para avançarmos na metodologia.

Outra questão a ser pontuada quanto à aplicação metodológica é a escala temporal utilizada para avaliação dos ecossistemas, pois de acordo com a proposta da UICN, a escala temporal estabelecida para avaliação da redução geográfica no Critério A (50 anos passados ou futuros, ou desde 1750) requer sequências de levantamentos e informações históricas dos ecossistemas, nem sempre já produzidas, tal como fotografias áreas e diante do fato, nota-se a necessidade de considerável produção científica. Considerando que o Brasil apresenta dimensões continentais, portanto diversidade e singularidade de ecossistemas, a baixa produção científica com ênfase em ecossistemas marinhos, Pantanal e Caatinga, por exemplo, pode limitar a aplicação não somente desse critério, como os demais.

Devido à ampla disponibilidade de informações acerca da Mata Atlântica brasileira, como as referentes à distribuição dos ecossistemas, amplamente disseminadas por tecnologia de sensoriamento remoto, tornaram o Critério A e o Critério B mais fáceis de serem atendidos. Quanto aos critérios relativos às características funcionais dos ecossistemas (Critérios C e D), por motivos operacionais, os mesmos não foram avaliados neste estudo, porém para futuras complementações, verifica-se que a Mata Atlântica apresenta produções cientificas capazes de atendê-los, tais como àquelas que fornecem informações de riqueza e distribuição de espécies, e das variações físicas dos ambientes (do clima, dos regimes hídricos, da qualidade do solo, água, entre outros), de modo a garantir maior confiabilidade nas categorias de riscos já obtidas, uma vez que, a avaliação da qualidade do ecossistema por variáveis abióticas e bióticas são fundamentais para alcançar resultados fidedignos à realidade. E finalmente o critério E, referente à probabilidade de colapso ecossistêmico, mostrou-se um tanto quanto desafiador para ser atendido, fato demonstrado quando apenas um ecossistema nos estudos de casos da UICN foi avaliado segundo este critério: a Lagoa Coorog, localizada no sul da Austrália.

Assim, a partir das reflexões acima e das observações realizadas no primeiro Seminário Nacional e Oficina de Capacitação da Lista Vermelha de Ecossistemas realizada nos dias 9 e 10 de Abril de 2013, em Brasília, cuja realização contou com a participação de organizações governamentais e não-governamentais as seguintes recomendações levantadas tornam-se essenciais para sobrepor os desafios de ampliar a aplicação e eficiência da Lista Vermelha de Ecossistemas da UICN no Brasil:
   a) Faz-se necessário a padronização do conceito de “ecossistemas” adotados, as bases de dados de trabalho, bem como a escala de abrangência. Vale ressaltar a importância de uma padronização equivalente aos demais países, a fim das listas serem comparáveis, permitindo assim um melhor panorama da biodiversidade no mundo.

   b) Sinalizar ao Governo Nacional sobre as potencialidades da Lista Vermelha de Ecossistemas Brasileiros para complementar a gestão das Áreas Prioritárias para Conservação no Brasil, de modo a articular o processo de construção e aplicação desta metodologia com processo de atualização dessas áreas prioritárias;

   c) Tornar a iniciativa visível em congressos, simpósios e fóruns, a fim de criar uma massa crítica à proposta e captar recursos; Incorporar a participação de instituições e engajá-las neste processo de implementação da Lista Vermelha de Ecossistemas no Brasil.

  d) Ampliar o acesso à informação à proposta da UICN, a partir por exemplo, da tradução do manual de orientação metodológica da Lista Vermelha de Ecossistemas da UICN de KEITH et al., 2013.

  e) Operacionalizar e consolidar o Grupo de Trabalho para produzir as estratégias e ações necessárias à evolução da proposta;

Quanto à aplicabilidade da Lista Vermelha de Ecossistemas da UICN no Brasil, creio que diante do cenário de degradação atual dos ecossistemas em escala mundial, conhecer o status de risco que comprometem suas funções e existência, utilizando uma avaliação criteriosa abrangendo todos os componentes fundamentais que consolidam informações de suas características (distribuição, variáveis bióticas e abióticas), aliado às estratégias de conservação e monitoramentos sistemáticos, pode ser uma etapa crucial para reduzir a criticidade desta situação, como tem sido proposto pela Lista Vermelha de Ecossistemas da UICN.

Seu estabelecimento inicial no Brasil configurado no Seminário Nacional e Oficina de Capacitação da Lista Vermelha de Ecossistemas vem garantindo um processo participativo de discussão no Brasil que tem verificado elevado potencial de replicação da ferramenta no Brasil, principalmente como subsídio às atualizações das áreas prioritárias para conservação da biodiversidade no país, portanto de grande aceitação pelas entidades participantes. Também identificou-se a potencialidade da metodologia vir a oferecer uma análise mais clara e fundamentada por bases científicas sobre a qualidade dos ecossistemas e seu estado de ameaça, informações limitadas nas ferramentas atualmente disponíveis e utilizadas para determinação de áreas prioritárias para conservação no Brasil.

Vale mencionar que no Brasil, o Ministério do Meio Ambiente tem sua tomada de decisão nas Listas Vermelhas Nacionais da Fauna e Flora, cuja criação tem origem nos fundamentos de critérios e categorias da UICN, sendo utilizadas como uma base de dados de orientação à organização do conhecimento sobre as espécies brasileiras ameaçadas de extinção.
 

Location: 
South America
Brazil
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