Queremos realmente proteger a Biodiversidade?

14 September 2010 | News story
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Neste ano de 2010, a COP da CDB volta a discutir metas, agora para 2020. Infelizmente, se não alterarmos nosso enfoque nesta questão, não teremos sucesso novamente. Não sei se podemos nos dar ao luxo de continuarmos a desprezar nossa necessidade vital dos serviços ambientais.

Teremos em outubro próximo mais uma Conferência das Partes – COP da Convenção da Diversidade Biológica – CDB, assinada em 1992 junto com as convenções do clima e desertificação. Será a 10ª COP da CDB, desta vez na cidade de Nagoya - Japão. A importância deste momento para a proteção da biodiversidade levou a ONU a declarar este ano o Ano Internacional da Biodiversidade. Entretanto, os níveis de destruição dos suportes de vida no planeta nos fazem questionar se queremos ou não manter os serviços ambientais oriundos da biodiversidade e que, em última instância, mantém todo o funcionamento de nossa sociedade. Considerando que a oferta de água e regulação climática dependem da biodiversidade, me parece que a sociedade ou não percebe esta relação e não a entende, ou, de fato, não lhe dá importância.

Em 2002 a Convenção da Diversidade Biológica da ONU, que reúne praticamente todos os países do planeta, aprovou um conjunto de 21 metas para reduzir drasticamente a perda da biodiversidade até 2010. Recentemente, um relatório da própria Nações Unidas preparado especialmente com o fim de avaliar o cumprimento das metas – o Global Biodiversity Outlook 3, ou GBO-3, demonstrou que nenhuma das metas foram alcançadas. O relatório detalha o contínuo declínio da biodiversidade em todos os três de seus principais componentes, ou seja, genes, espécies e ecossistemas. Pior: as tendências são todas de agravamento da erosão da vida e das estruturas que a suportam e nossos investimentos revelam que não desejamos mudar o quadro.

Ao analisar os investimentos dos países em proteção ambiental, o já falecido economista ambiental David Pearce, fez esta pergunta: queremos realmente proteger a biodiversidade? Se tomarmos os investimentos públicos do Brasil, municípios, estados e união, a resposta seria claramente não. Em recente levantamento que fiz para a CEPAL/ONU para o período de 1996 a 2008, somando os gastos ambientais aos gastos de saneamento (água e esgoto) nos três níveis da federação encontramos uma média de 0.38% do PIB para estes investimentos. Se considerarmos apenas os gastos em manutenção ou recuperação da biodiversidade e seus serviços, chegaríamos a valores impressionantemente inferiores a isso.

Em escala global a UICN – União Internacional para a Conservação da Natureza contabilizou um fluxo total anual de U$ 7 bilhões para a conservação da biodiversidade. Ora, somente as unidades de conservação já criadas – apenas uma parcela dos trabalhos de conservação – exigiriam U$ 14 bilhões para o seu correto manejo. Uma rede minimamente necessária de unidades de conservação em nível global exigiria U$ 45 bilhões. E vejam que proteger a biodiversidade nos convoca a pensar muito além de unidades de conservação...

A mesma UICN contabiliza ao menos U$ 500 bilhões destinados a subsídios perversos todos os anos mundialmente. Subsídios para, em grande parte, destruir a natureza, tal como os subsídios para a indústria de petróleo, agricultura intensiva e pesca intensiva. Será que não conseguiríamos desviar ao menos uns 10% destes subsídios perversos para torná-los virtuosos? Neste caso, os U$ 50 bilhões gerados corresponderiam à lacuna de recursos necessários à implantação das decisões da CDB. Não nos faltam recursos. Falta visão de como investir. Falta visão de futuro.

Neste ano de 2010, a COP da CDB volta a discutir metas, agora para 2020. Infelizmente, se não alterarmos nosso enfoque nesta questão, não teremos sucesso novamente. Não sei se podemos nos dar ao luxo de continuarmos a desprezar nossa necessidade vital dos serviços ambientais. Dependemos desta vez, para levar realmente a sério a proposta de aprovar novas metas, de alterar nosso comportamento em três direções: uma mudança profunda nos processos de produção e consumo, adequando bens e consumo à realidade dos ecossistemas; a introdução ampla de critérios de proteção ambiental nos setores econômicos mais impactantes transformando agricultura, pecuária, produção de energia, construção civil, mineração; e investir em processos de restauração florestal e de biomas como forma de recuperar parte do que já perdemos. Todas estas três premissas são mecanismos geradores de crescimento econômico, emprego e renda. É claro que isso é uma nova economia que tem que ser alimentada.

Enquanto esperamos e pressionamos por alterações em nosso modelo de desenvolvimento econômico podemos dar uma boa mãozinha ao processo de transformação alterando nossos hábitos de consumo. Isto ajuda a pressionar a cadeia produtiva para cima, ou seja, alterando positivamente também os processos produtivos. E finalmente, melhorando nossa relação com a biodiversidade.

Queremos ou não que a natureza seja nossa parceira no fornecimento dos serviços ambientais que permitem nossa existência? O tempo de dizer sim está se esgotando rapidamente.

Luiz Fernando Krieger Merico
Coordenador Nacional da UICN no Brasil
Doutor em Geografia pela USP
Autor de “Economia e Sustentabilidade: o que é, como se faz”. Editora Loyola.

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