Áreas Protegidas e a Nova Economia

22 March 2011 | Blogs

 É evidente nos dias de hoje que o mercado sozinho não oferece uma base segura para um desenvolvimento sustentável. Não há respostas puramente mercadológicas para o declínio dos ecossistemas e a perda progressiva da biodiversidade. Mas também é evidente que a conservação da biodiversidade oferece novas oportunidades para investidores e empresas, estimula novas tecnologias e novos modelos de negócio. O surgimento destes novos mercados, entretanto, dependem de políticas públicas consistentes na área de conservação.

A agenda do século XXI deverá contemplar, assim, o fortalecimento das políticas públicas de meio ambiente como fator fundamental para induzir mudanças estruturais em todos os setores da economia. Isto se aplica às áreas protegidas. Maximizar a produtividade dos ecossistemas sem destruí-los parece ser a chave deste processo. Com mais de 20% do território constituído como áreas protegidas no Brasil, me parece óbvio mergulharmos fundo nesta tarefa.

Ao mesmo tempo em que a instituição de áreas protegidas pode ser percebida como um constrangimento na economia tradicional, pode também nos conduzir a uma transformação produtiva. Corresponderia a evoluir para uma visão de colaboração com as políticas governamentais, criação de imagem diferenciada, penetração em novos mercados certificados, desenvolvimento de novos produtos e serviços, abertura de mercados para serviços dos ecossistemas, acesso a linhas de financiamentos inovadoras no sistema financeiro, contribuição ao consumo sustentável. A dimensão das oportunidades de novos negócios não pode ser perdida.

Todas as unidades de conservação oferecem perspectivas de negócios sustentáveis. Não temos, para citar apenas um caso, explorado suficientemente o potencial turístico na imensa maioria de nossas áreas de proteção integral. Mas, mais especialmente, as unidades de conservação de uso sustentável abrem enormes avenidas para a consolidação de uma nova produção, sempre associada à equidade e justiça social.

São nas áreas protegidas de uso sustentável onde encontramos as maiores oportunidades de promover o biocomércio. Fortalecer o biocomércio significa ampliar o uso sustentável da biodiversidade e incentivar a organização de comunidades, permitindo a implantação de estratégias específicas de inserção de produtos da sociobiodiversidade nos mais variados mercados como forma de preservação ambiental e geração de renda. Neste caso, a riqueza biológica torna-se vantagem competitiva.

Mas deve-se reconhecer que os produtos oriundos da biodiversidade são heterogêneos do ponto de vista da qualidade, possuem baixo valor agregado e provêm de comunidades com baixa capacidade de gestão de negócios. Geralmente, essas comunidades têm pouco acesso a recursos financeiros, aos mercados e pouco conhecimento dos mecanismos de formação de preços. A oportunidade do avanço do biocomércio reside na geração das condições necessárias para o fortalecimento dessas cadeias produtivas.

E existem, ainda, muitas outras alternativas. A recuperação de ecossistemas degradados gera empregos dinamizando regiões empobrecidas. Esquemas de remuneração de serviços ambientais, compensações por redução de desmatamento, conhecido pela sua sigla em inglês - REDD, reconhecimento dos “produtores de água” são alguns destes mecanismos de geração de renda. Farão parte de nosso futuro econômico. Quem, hoje, por exemplo, teria coragem de discordar do potencial econômico da ecogastronomia? Áreas protegidas são centrais neste contexto.

Não obstante todo esse potencial produtivo, a representatividade destas economias em nosso PIB é significativamente pequena. É um potencial não explorado e, na maioria das vezes, nem mesmo contabilizado. Além disso, associa-se a estes fatores a destruição de ecossistemas, que acaba por inviabilizar esse tipo de produção.

Percebe-se, portanto, que uso sustentável da biodiversidade conduz a interessantes e importantes oportunidades de negócio. Infelizmente, oportunidades de negócio associados aos ecossistemas e biodiversidade têm sido perdidas.

Por: Luiz Fernando Krieger Merico, Coordenador Nacional da UICN no Brasil, luiz.merico@iucn.org